Père Daloa: donativos, notoriedade online e debate sobre a mendicidade

O caso do Père Daloa, tal como é apresentado num vídeo de Tobeh, levanta uma questão sensível: onde se situa a fronteira entre a gratidão para com um benfeitor, a animação popular e o pedido de dinheiro? Tornado visível nas redes sociais graças ao seu temperamento e aos seus vídeos, este homem recebeu donativos importantes que mudaram progressivamente a sua situação. Mas esta exposição também alimentou muitas críticas.
O vídeo não se limita a contar uma ascensão individual. Questiona, de forma mais ampla, as práticas de respeito para com os mais velhos ou as pessoas abastadas, bem como a sua amplificação pela Internet. No entanto, os factos e as declarações relatados no vídeo são apresentados através da perspetiva do seu autor e das pessoas que nele intervêm.
Uma popularidade nascida de vídeos espontâneos
Segundo Tobeh, o Père Daloa começou a ganhar visibilidade através de vídeos divulgados online de forma bastante espontânea. Neles, surge com uma energia, uma alegria de viver e uma maneira de se exprimir que rapidamente encontram público, sobretudo entre os jovens internautas.
Nessa fase do seu percurso, é descrito como alguém que vivia com poucos recursos e vendia malas para assegurar as suas necessidades. A sua atitude positiva, apesar desta precariedade, desperta simpatia. As pessoas que o descobrem online querem então ajudá-lo, o que dá origem aos primeiros donativos.
Esta sequência é central na narrativa de Tobeh: a visibilidade digital não serve apenas para entreter ou tornar uma personalidade conhecida. Também pode criar uma ligação direta entre um público, potenciais apoios e uma pessoa cuja situação material comove os internautas.
O apoio do Rei 12 e a encenação do reconhecimento
Entre as pessoas mencionadas no vídeo está o Rei 12, apresentado como um homem muito rico no Mali. Tobeh esclarece que as estimativas relativas à sua fortuna são vagas, indicando, ainda assim, que algumas pessoas o classificam como bilionário em francos CFA.
O Père Daloa recebe dele um donativo que, de acordo com as suas próprias declarações nos excertos divulgados, ascende a um milhão de francos CFA. A relação entre os dois homens torna-se então particularmente visível. Quando o Rei 12 chega a Abidjan, as imagens mostram o Père Daloa a recebê-lo de forma muito demonstrativa.
A cena provoca desconforto no videasta. Tobeh critica, nomeadamente, o facto de o Père Daloa se prostrar, beijar os pés do seu benfeitor e tratá-lo por «deus». Para o autor do vídeo, esta atitude vai além de uma simples demonstração de gratidão.
Contudo, o principal interessado assume uma posição diferente nas sequências reproduzidas. Assume que pede e agradece publicamente a quem o ajuda. Chega mesmo a afirmar ser «mendigo» e compara esta abordagem à dos artistas que mencionam ou cantam o nome de pessoas com recursos financeiros. No seu raciocínio, receber um donativo de uma pessoa desconhecida não seria vergonhoso.
Um debate sobre a palavra «mendicidade»
O termo mendicidade surge constantemente no vídeo. Tobeh considera que o que acontece em torno do Père Daloa não se resume à admiração ou ao reconhecimento: vê nisso uma atividade assumida de pedido de apoio financeiro, reforçada pelas redes sociais.
Outros intervenientes matizam ou contestam esta leitura. Um deles fala de uma «profissão», traçando um paralelo com os griots e os artistas que celebram publicamente pessoas abastadas. O Père Daloa, por seu lado, parece recusar que o seu comportamento seja apresentado como degradante. Sustenta que não rouba nem faz mal a ninguém.
A divergência diz, portanto, tanto respeito às palavras como às práticas. Por um lado, o autor do vídeo questiona a dignidade humana e os gestos adotados para obter dinheiro. Por outro, o Père Daloa defende uma lógica de reconhecimento: uma pessoa que ajuda merece, segundo ele, ser saudada, homenageada e agradecida publicamente.
Donativos que transformam a sua situação
Ao longo dos excertos, o Père Daloa explica ter recebido vários apoios: dinheiro, um carro, cimento e outros auxílios destinados, nomeadamente, à construção. Mostra uma habitação em obras e menciona diferentes pessoas a quem agradece pelas suas contribuições.
Explica também ter investido uma parte do dinheiro obtido num projeto imobiliário. Numa das sequências, afirma ter entregue vários milhões a uma pessoa que lhe teria dado um terreno para iniciar as obras. Insiste, ainda assim, no facto de poupar por conta própria e contribuir para os seus próprios projetos.
Para Tobeh, esta mudança material ilustra a eficácia desta estratégia de exposição e de pedido de apoios. O videasta salienta que o Père Daloa já não venderia malas como antes e que agora parece dedicar-se mais à construção. Vê nisso o sinal de que os donativos, associados à notoriedade, mudaram profundamente as suas condições de vida.
Os bilhetes de aniversário, um sistema contestado
O vídeo aborda depois a venda de bilhetes relacionados com o aniversário do Père Daloa. Segundo Tobeh, estes bilhetes permitiriam, em teoria, aceder a uma celebração. Mas afirma que a verdadeira questão não seria a organização de uma festa, servindo os bilhetes sobretudo de pretexto para pedir uma contribuição financeira.
O videasta relata até que, num determinado ano, teriam sido vendidos bilhetes quando o Père Daloa não se encontrava na Costa do Marfim na altura do seu aniversário. Esta afirmação é apresentada por Tobeh como um elemento que mostra que os compradores já compreenderiam a natureza simbólica do seu pagamento.
Nas sequências comentadas, o Père Daloa aborda artistas, personalidades e responsáveis públicos para que comprem vários bilhetes. Tobeh insiste que o número de bilhetes corresponderia sobretudo ao montante que a pessoa aceita dar.
O videasta reprova também ao Père Daloa a adoção, por vezes, de um tom insistente, ou mesmo agressivo, perante certas pessoas filmadas. Estas passagens reforçam, na sua análise, a ideia de uma atividade estruturada em torno da notoriedade e do pedido de dinheiro.
A rutura com o Rei 12
A relação com o Rei 12 acaba por se deteriorar. O Père Daloa afirma que este lhe teria feito promessas, nomeadamente relativas a táxis e a uma quantia ligada a uma operação. Reprova ao seu antigo benfeitor não ter cumprido certos compromissos.
Num excerto, declara ter pago o seu próprio tratamento, mencionando uma despesa de 700 000 francos CFA. Associa o seu problema de saúde ao episódio em que rastejou para o Rei 12 e considera que este deveria participar nas suas despesas. Estas declarações são apenas as suas declarações relatadas no vídeo.
Tobeh vê nesta rutura uma inversão reveladora. Segundo ele, o Père Daloa, que se tornou financeiramente mais confortável e é apoiado por uma comunidade, já não dependeria tanto do seu primeiro grande benfeitor. O videasta reprova-lhe então uma falta de reconhecimento, tendo em conta o caminho percorrido graças aos donativos recebidos.
O que revela o caso do Père Daloa
Para além da sua personalidade, o caso do Père Daloa mostra como uma presença online pode transformar uma história pessoal num fenómeno público. A simpatia inicial, os donativos, os agradecimentos espetaculares e os pedidos repetidos tornam-se conteúdos suscetíveis de circular e alimentar o debate.
O vídeo de Tobeh adota uma perspetiva muito crítica sobre esta dinâmica, em particular sobre a questão da dignidade e a utilização da gratidão como alavanca financeira. O Père Daloa, por seu lado, defende nos excertos uma visão muito mais pragmática: pedir não é roubar, e celebrar uma pessoa generosa pode abrir caminho a novos apoios.
O debate permanece, assim, aberto entre os que veem nisto uma forma de mendicidade encenada e os que o interpretam como uma prática de reconhecimento, promoção e sobrevivência. Uma coisa sobressai claramente da narrativa: as redes sociais deram a estas interações um alcance muito maior do que teriam tido fora das câmaras.
Perguntas frequentes
Porque é que o Père Daloa se tornou popular?
De acordo com o vídeo de Tobeh, a sua popularidade resulta de vídeos publicados online que mostram a sua personalidade, a sua alegria de viver e as suas intervenções, numa altura em que vivia numa situação precária.
Que apoios diz o Père Daloa ter recebido?
Nos excertos divulgados, menciona, nomeadamente, donativos em dinheiro, um carro, cimento e apoios ligados aos seus projetos de construção.
Porque é que Tobeh fala de mendicidade?
O videasta utiliza este termo porque considera que os agradecimentos públicos, os pedidos dirigidos a celebridades e a venda de bilhetes constituem uma abordagem direta para obter dinheiro. O Père Daloa não partilha desta interpretação.



